22 MAR 2026·CONVERSAS·12 MIN

Inside the Boutique Hotel

Uma conversa com o fundador das Casas da Quinta de Cima.

Há hotéis que nascem de uma oportunidade de negócio. Outros surgem da vontade de criar um conceito. As Casas da Quinta de Cima nasceram de algo muito mais raro: da vontade de preservar um lugar que pertence à mesma família há mais de cem anos.
Situadas entre Cacela Velha, a Ria Formosa e a Praia da Fábrica, no Sotavento Algarvio, as Casas da Quinta de Cima fazem parte de uma propriedade agrícola que continua em plena atividade, rodeada por cerca de 50 hectares de laranjeiras, limoeiros e abacateiros.

Nesta conversa, o fundador partilha as memórias que marcaram a sua infância, a inspiração recolhida ao longo das viagens pelo mundo, a visão que deu origem ao projeto e a forma como entende conceitos como luxo, hospitalidade e autenticidade. Mais do que uma entrevista sobre um boutique hotel no Algarve, esta é uma conversa sobre legado, família, natureza e a vontade de criar um lugar pensado para durar, geração após geração.

1. As Casas da Quinta de Cima pertencem à sua família há várias gerações. Que memórias guarda deste lugar e como influenciaram a decisão de transformar a propriedade neste projecto?

As Casas da Quinta de Cima (exploração turística do monte agrícola da Quinta de Cima) fazem parte integrante da propriedade Quinta de Cima, adquirida pelo meu bisavô, Frederico Ramirez, há mais de 100 anos.
A Quinta foi passando de geração em geração: do meu bisavô Frederico Ramirez para o seu filho, Sebastião Ramirez; depois para o meu pai, Ruy Ramirez Sanches; e agora para mim, por herança e pela aquisição do quinhão dos meus irmãos.
Desde criança que passo férias na Quinta de Cima, uma tradição que foi sendo transmitida aos meus filhos e que hoje também partilho com os meus netos.
Os longos dias de verão eram — e continuam a ser — vividos ao lento ritmo do Sotavento Algarvio, com usufruto diário da Ria Formosa e das suas magníficas praias.
Recordo os passeios ao final da tarde e os infindáveis banhos no tanque de rega, que é hoje a piscina aquecida do hotel.
Para mim, continua a ser um privilégio acordar ao som da passarada, tomar o pequeno-almoço na varanda enquanto o sol começa a aquecer, fazer longas caminhadas na Praia da Fábrica, também conhecida como Praia de Cacela Velha, regressar a casa para um almoço com família e amigos na varanda quando o calor aperta e, depois, dormitar à beira da piscina, à sombra do pinheiro centenário.
Ao final da tarde, depois de uma boa leitura e de vários mergulhos na piscina, segue-se um bom duche, uma roupa confortável e já bem usada, e um belo copo de vinho fresco enquanto se aguarda pelo jantar.
Por vezes, regresso à praia para mais uma caminhada e para desfrutar de um último banho de mar, quase até ao pôr do sol.
Ao jantar, novamente na varanda, o céu vai-se enchendo de estrelas. A Via Láctea e as várias constelações são perfeitamente visíveis, o que pede um segundo copo de vinho e, por vezes, até um licor de medronho, produzido exclusivamente com os medronhos da Quinta — temos atualmente 175 medronheiros, plantados em 2020, que já dão uma boa produção.
Felizmente, os meus filhos e os meus netos partilham também esta paixão pela Quinta de Cima, seja para estarem em família, seja para receberem amigos.
Com tantas memórias felizes, sempre pensei que teria de encontrar uma forma de maximizar a probabilidade de a Quinta permanecer na família e de nunca ter de ser vendida.
Para isso, tornou-se evidente a necessidade de dotar a propriedade de recursos e receitas que a tornassem autossustentável, para que a questão financeira nunca fosse o motivo de uma eventual venda.
Como a minha vida profissional me permitiu acumular alguma folga financeira, decidi fazer um investimento muito significativo na recuperação e reabilitação de todo o antigo monte agrícola, transformando-o naquele que ambiciono ser o melhor boutique hotel do Algarve.

A expectativa é que as receitas da agricultura — provenientes dos 50 hectares de pomares — e as receitas da exploração hoteleira garantam, em conjunto, um volume de receitas suficiente para cobrir todos os custos de exploração e de manutenção, permitindo que as gerações vindouras nunca sintam pressão financeira para alienar a Quinta de Cima.

Com este projeto, acredito poder alcançar vários objetivos em simultâneo:

— Dotar a propriedade de sustentabilidade física e financeira.
— Recuperar o edificado existente, que começava a acusar a passagem dos anos.
— Preservar a qualidade e a identidade de um monte agrícola que sempre foi exemplar.
— Criar emprego para pessoas da região.
— Reforçar a segurança da Quinta através da presença permanente das equipas da agricultura e da hotelaria.
— E, por último, mas não menos importante, partilhar com os nossos hóspedes as maravilhosas emoções que a minha família viveu — e continua a viver — nesta extraordinária Quinta.

Inside the Boutique Hotel
A identidade das Casas de Quinta de cima permanece fiel às suas origens

2. Tendo passado férias aqui desde criança, o que torna Cacela Velha e esta zona do Algarve tão especiais para si?

De facto, a Quinta de Cima e esta zona do Algarve sempre representaram o expoente máximo das férias para mim e para a minha família.
As quintas, em geral, e a Quinta de Cima, em particular, sempre foram locais onde a vida no campo e o contacto com a natureza se conjugam com férias longas, vividas sem pressa.
Penso que essa é a emoção mais forte que posso partilhar.
O ritmo da agricultura, em que um pomar leva quatro anos a iniciar a sua produção, o ciclo natural dos animais, que vivem e se reproduzem ao seu próprio ritmo, e o simples passar dos dias convidam-nos a um tempo que, acredito, o nosso ADN precisa para se reencontrar consigo próprio e, consequentemente, também com os outros.
À tranquilidade rural das Casas da Quinta de Cima junta-se a proximidade de uma praia extraordinária: a Praia da Fábrica, também conhecida como Praia de Cacela Velha, considerada por muitos uma das mais belas praias do Algarve e de Portugal.
Apesar de ter sido “descoberta” pela imprensa nos últimos anos, continua a oferecer um enorme areal, banhos magníficos e uma tranquilidade difícil de encontrar noutras praias, mesmo durante os meses de julho e agosto.
Para os hóspedes das Casas da Quinta de Cima, esta experiência torna-se ainda mais simples. A estadia inclui transporte de tuk-tuk até à praia e regresso, a travessia de barco pela Ria Formosa e ainda espreguiçadeiras e chapéu de colmo na concessão da Praia da Fábrica.
Tudo isto permite desfrutar da praia de forma completamente descontraída, sem preocupações com dinheiro, estacionamento ou horários.
Acredito sinceramente que esta experiência é um dos aspetos que mais distingue as Casas da Quinta de Cima, permitindo que cada hóspede viva a Praia de Cacela Velha ao seu próprio ritmo, de forma totalmente personalizada.
Entre as experiências que disponibilizamos em parceria com operadores locais, destaco uma das minhas favoritas: os passeios a cavalo durante a primavera e o outono. O percurso começa na alameda das buganvílias, dentro da Quinta de Cima, segue pela praia até Cacela Velha, onde é possível provar as famosas ostras da Ria Formosa, regressando depois, novamente a cavalo, até à Quinta.
Esta zona do Algarve preservou, graças a Deus, a sua simplicidade rústica e autêntica. Ao mesmo tempo, encontra-se a poucos minutos de duas das vilas mais bem preservadas do Algarve — Tavira e Vila Real de Santo António — oferecendo aos nossos hóspedes a possibilidade de alternar entre a tranquilidade da natureza e o encanto de centros históricos cheios de identidade.
É precisamente este equilíbrio entre campo, praia, natureza, gastronomia e património que faz desta região um lugar tão especial e ao qual continuo a regressar, com o mesmo entusiasmo, desde criança.

Inside the Boutique Hotel
A autenticidade algarvia mantém-se intacta

3. Ao longo das suas viagens pelo mundo, conheceu inúmeros hotéis e conceitos de hospitalidade. Houve alguma experiência ou aprendizagem que tenha influenciado a criação das Casas da Quinta de Cima?

As Casas da Quinta de Cima resultam do projeto de arquitetura do Arq. João Pedro Falcão de Campos para a reabilitação do monte agrícola da Quinta de Cima e das duas vilas independentes onde viviam também famílias de colaboradores da Quinta.
Assim, o conceito espacial do projeto foi fortemente condicionado, de forma positiva, pelo edificado existente, que tinha já uma traça arquitetónica de grande qualidade.
Dito isto, a ambição foi sempre criar um pequeno boutique hotel, com menos de 30 quartos, de grande qualidade, onde fosse possível replicar a experiência que a minha família vem desfrutando na Quinta de Cima há mais de cem anos.
Houve, assim, uma feliz conjugação entre um excelente projeto de reabilitação e a introdução das comodidades modernas de um boutique hotel integrado numa exploração agrícola em funcionamento e obedecendo às exigentes regras regulamentares do Parque Natural da Ria Formosa, que, na prática, obrigaram à manutenção integral do edificado existente, muito antigo.
Efetivamente, a minha atividade profissional, primeiro durante cerca de vinte anos na área financeira e, depois, durante mais de vinte e cinco anos no setor imobiliário, permitiu-me viajar bastante pelo mundo e, nos últimos anos, ficar hospedado em hotéis de grande qualidade, dos quais retirei ensinamentos muito valiosos e que, de uma forma ou de outra, tentei transpor para as Casas da Quinta de Cima.
A pouco e pouco fui desenvolvendo um particular apreço pela natureza, conjugada com um serviço de grande qualidade, mas muito personalizado. Fui percebendo que isso só se consegue em hotéis muito pequenos (na minha opinião, com menos de 30 quartos) porque só assim é possível criar uma verdadeira ligação ao local, às suas gentes e às emoções que cada lugar desperta.
Foi esse sentido de autenticidade que aprendi em alguns dos hotéis por onde passei e que tentei trazer para as Casas da Quinta de Cima.
Acredito que, na vida, há que fazer as coisas com AMOR e, idealmente, também com acento no BELO e no VERDADEIRO.
Foi com estes três princípios em mente que a equipa projetou e administra o melhor boutique hotel do Algarve: as Casas da Quinta de Cima.

4. Na sua opinião, o que representa o verdadeiro luxo nos dias de hoje? E como é que essa visão difere da ideia tradicional de luxo?

Penso que, hoje, coexistem muitos conceitos de tudo e também de luxo.
Parece que vivemos numa época em que tudo existe e tudo coexiste, mas onde também há muita insatisfação.
Assim, para mim, luxo é a satisfação de quem tem a possibilidade de proporcionar a si próprio determinadas experiências e emoções.
Hoje, isso já não se traduz num somatório de atributos físicos exuberantes — pedras caras ou tecidos sumptuosos — mas sim em tempo, espaço, harmonia, beleza, localização, arquitetura, design de interiores, paisagismo e… sempre… SERVIÇO PERSONALIZADO.
Para mim, o verdadeiro luxo está na perfeita integração das emoções e dos sentidos, conjugados no tempo e no espaço através das relações humanas.
É essa ideia de luxo que procuramos oferecer nas Casas da Quinta de Cima.

5. Existe algum local da propriedade, detalhe da casa ou tradição familiar que tenha um significado especial para si e que goste de partilhar com os hóspedes?

Dados os meus provectos 69 anos, não há canto nem pormenor da Quinta de Cima que não me encha de memórias e emoções.
Neste contexto, e destacando apenas dois exemplos, refiro:
O antigo tanque de rega, hoje transformado na piscina aquecida das Casas da Quinta de Cima, mas que mantém integralmente o aspeto que sempre teve. Foi nesse tanque que mergulhei inúmeras vezes com os meus irmãos, primos e amigos, vivendo horas e horas de brincadeira e diversão. Foi também ali que navegavam os nossos pequenos barcos à vela, alguns dos quais ainda hoje fazem parte da decoração da receção das Casas da Quinta de Cima.
A alameda das buganvílias, por onde tantas vezes passei a pé, de bicicleta ou a cavalo, a caminho das nespereiras e das amoreiras, onde nos deliciávamos a comer fruta antes da hora do lanche.
Estes são apenas dois pequenos exemplos das memórias infindáveis que guardo da minha vida na Quinta de Cima.

Inside the Boutique Hotel
A piscina de 25 metros e a piscina aquecida convidam a momentos de tranquilidade absoluta.

6. Como tem evoluído aquilo que os viajantes procuram atualmente e que papel acredita que os hotéis boutique terão no futuro da hospitalidade no Algarve?

Não tenho qualquer pretensão de ser um perito em hotelaria e, muito menos, de conseguir prever qual será o rumo da hospitalidade no Algarve.
Acredito, no entanto, que viajar continuará a ser um dos grandes sonhos do Ser Humano e que, no futuro, as pessoas terão cada vez mais tempo e recursos para dedicar às viagens e ao lazer.
Penso que diferentes segmentos da oferta turística continuarão a desenvolver-se e acredito sinceramente que o conceito de pequeno boutique hotel veio para ficar como um segmento de relevância crescente.
Na minha opinião, a combinação entre uma localização única, uma arquitetura de qualidade, um design de interiores cuidado e um serviço de excelência constitui uma proposta suficientemente diferenciadora para justificar essa convicção.
É, pelo menos, nisso que acreditamos quando pensamos o futuro das Casas da Quinta de Cima.

Localização

Estrategicamente localizado entre Lisboa e Sevilha, com o conveniente acesso do Aeroporto de Faro nas proximidades. Experimente a verdadeira essência do Algarve enquanto se dirige para este exclusivo boutique hotel, onde a tranquilidade rural e o luxo se encontram.

EM1242, Vila Nova de Cacela – Portugal

DE AUTOMÓVEL

Lisboa – 2h50
Seville – 1h50

DO AEROPORTO

Aeroporto
de Faro – 40min

DE COMBOIO

Tavira – 15min
Vila Nova de Cacela – 4min



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